sábado, junho 20, 2009

OCUPAÇÃO DE TEMPOS LIVRES DE CRIANÇAS E JOVENS NO CONCELHO DE ALCOBAÇA (E ARREDORES)

Nenhuma sociedade que se pretenda civilizada permite que as suas crianças e jovens passem inutilmente (por exemplo em casa, defronte da televisão ou do computador) os mais de dois meses de férias escolares de Verão que o nosso sistema educativo proporciona. É por isso dever de todos, das famílias, das organizações da chamada "sociedade civil" e das entidades com resposnabilidades políticas (nomeadamente câmaras municipais e juntas de freguesias) providenciar às crianças e aos jovens actividades de ocupação produtiva dos tempos livres, permitindo-lhes alargar os seus horizontes de conhecimentos e valorizarem-se pessoal e humanamente. É, infelizmente, bastante pouco o que existe nesta matéria no nosso concelho de Alcobaça, e nomeadamente para os adolescentes e jovens com idades superiores a 12 anos. Porque achamos inportante divulgar estas actividades, deixamos aqui algumas sugestões, e pedimo-vos que nos contactem caso saibam de alguma actividade ou programa existente.

Para além do Agrupamento de Escuteiros 522 Coz, que de há muito organiza várias actividades de Verão, incluindo o seu célebre acampamento, louvável é também o programa da ESDICA de ocupação de tempos livres que abaixo indicamos (carregar sobre a imagem para ampliar).

Também soubémos que a Academia de Múisica de Alcobaça vai organizar este Verão pequenos cursos de intrumentos musical, ligando assim de forma excelente a ocupação de tempos livres à cultura musical dos nossos jovens.




Do vizinho concelho da Nazaré chegaram-nos novas sobre actividades educativas para crianças e jovens, organizadas pelo no excelente Museu Dr. Joaquim Manso. Aqui ficam indicadas para quem estiver interessado. Obrigado, ao Museu, pela comunicação. E parabéns pelas iniciativas!


1. Como se veste a Nazaré
Oficina pedagógica - atelier

Actividade infantil dedicada ao traje tradicional da Nazaré. Após visita temática ao Museu, recorrendo a miniaturas de peças de vestuário e a actividades de expressão plástica, os participantes podem ficar a saber mais sobre a estrutura deste tipo de traje e o seu enquadramento socio-económico, associando a descoberta de conhecimentos ao gosto lúdico pela moda e o vestuário.

Público-alvo: 6 aos 10 anos
Data: a partir de 23 Junho
Horário (duração): Terça-feira e Quinta-feira, 90 minutos
N.º de participantes: 25 (máximo)
Marcação prévia
Inscrição gratuita

2. Aprender com o barro
Oficina pedagógica - Atelier

Através da utilização do barro, as crianças constroem a sua interpretação de elementos da cultura local constantes do percurso do Museu Dr. Joaquim Manso. Paralelamente, será explorada uma pequena exposição didáctica sobre o emprego do barro nas artes de pesca e sobre uma antiga olaria existente na Nazaré.

Colaboração do Museu de Cerâmica, das Caldas da Rainha.

Público-alvo: 6 aos 10 anos
Data: Julho de 2009
Horário (duração): Quarta-feira e Sexta-feira, 90 minutos
N.º de participantes: 25 (máximo)
Marcação prévia
Inscrição gratuita

3. "(Re) Descobrir a Nazaré"
Visitas guiadas

Através de visitas guiadas e da partilha de saberes e memórias, o público pode (re) encontrar-se com a identidade cultural da Nazaré.

Público-alvo: público sénior
Data: Julho de 2009
Horário (duração): Terça a Sexta-feira - 40 minutos
N.º de participantes: 25 (máximo)
Marcação prévia
Inscrição gratuita

CONTACTO:

Museu Dr. Joaquim Manso
Rua D. Fuas Roupinho - Sítio
2450-065 Nazaré
telef. 262562801
fax. 262561246
e-mail: mdjm@imc-ip.pt mdjm.directora@imc-ip.pt>
http://mdjm-nazare.blogspot.com

O Armazém das Artes, em Alcobaça, promove também este Verão uma interessante iniciativa para ceianças dos 6 aos 12 anos. Trata-se de uma Oficina de Pintura, espaço que permitirá estimular nas crianças o gosto pelas artes. É mais uma iniciativa a saudar no nosso concelho!


(carregue aqui para ir oara o Armazém das Artes)

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segunda-feira, maio 18, 2009

II Rota de Cister - Passeio de Ciclomotores e Motociclos Antigos

Um evento, em segunda edição, que tem o grande mérito de permitir o contacto com a beleza natural da nossa região. Uma forte saudação, portanto, e os votos para que continue... nesta boa rota!

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domingo, maio 03, 2009

JORNADAS SOBRE PATRIMÓNIO CULTURAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO

(carregue sobre a imagem para aceder ao Blog Património Cultural da Nazaré)

O Bazar das Monjas de Coz vem por este meio convidar-vos a participar nas JORNADAS SOBRE PATRIMÓNIO CULTURAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO - Caminho Real da Pederneira – Itinerário histórico-religioso, que terão lugar aqui bem perto de nós, na bela Cidade da Nazaré, no próximo dia 9 de Maio de 2009, no Círculo Cultural Mar Alto (junto ao Hotel Nazaré), a partir das 10:00.

(carregue sobre a imagem para descarregar o Programa Definitivo do evento)

Foi criado um Blog, Património Cultural da Nazaré, através do qual poderão ser acompanhados os trabalhos destas Jornadas, o qual conta já com diverso material de interesse, incluindo os resumos de algumas das Comunicações que irão ser apresentadas.

O Bazar das Monjas de Coz saúda vivamente este encontro que, em sua opinião, constitui um marco importante para o lançamento de um debate nacional cada vez mais instante, sobre Património Cultural e Desenvolvimento Sustentável. Contamos pois com a vossa presença e com o vosso apoio, designadamente ao nível da Divulgação.

Com os melhores cumprimentos,

Raquel Romão
gestora, Bazar das Monjas de Coz

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terça-feira, abril 28, 2009

Espectáculo "Rosa, Esperança", dia 2 de Maio, no Cine-Teatro de Alcobaça pelas 21:30 horas

Um muito interessante e louvável projecto de mulheres unidas pela circunstância de sofrerem de cancro da mama: uma terrível doença que em Portugal mata em média 4 mulheres por dia. Um projecto já com história, que pode ser consultada aqui, a merecer todo o nosso apoio e solidariedade, e que agora nos visita em Alcobaça para um espectáculo que tudo indica será bem-humorado e memorável. A mostrar como o sentido de humor nos pode ajudar a atravessar mesmo as piores dificuldades da nossa vida. O Bazar das Monjas associa-se a esta iniciativa, e convida todos os seus amigos e visitantes a estarem também presentes. É desta forma simpática que as próprias anunciam o evento:


(carregue na imagem para ampliar)

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domingo, abril 19, 2009

Carta Europeia dos Mosteiros e Sítios Cistercienses, Mosteiro de Alcobaça, 1-3 Maio 2009

(carregue na imagem para ampliar)

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quinta-feira, abril 02, 2009

José Alberto Vasco publica “Uma Noite de Insónia”

José Alberto Vasco reedita em livro conto histórico "Uma Noite de Insónia", após a sua publicação no ciberjornal Tinta Fresca e no seu Blogue Nas Faldas da Serra.

O lançamento do conto histórico “Uma Noite de Insónia” vai realizar-se em Alcobaça, no Armazém das Artes, no dia 25 de Abril, às 16h30. O conto foi inicialmente publicado em Abril e Maio de 2002 no jornal digital Tinta Fresca, tendo sido reeditado, já na sua edição ne varietur, em Abril de 2006, no blogue “Nas Faldas da Serra”. Publicado agora em formato analógico, em edição ne varietur, com chancela da Papiro Editora, do Porto, o livro, inspirado na revolução do 25 de Abril, será apresentado pela animadora cultural Raquel Romão e pelo professor universitário Valdemar Rodrigues.

O Bazar das Monjas associa-se pois a mais esta notável iniciativa cultural, no dia em que se comemora mais um aniversário (o 35º) da Revolução dos Cravos, data que viria, a par do 25 de Novembro de 1975, a marcar idelevelmente o futuro dos portugueses e dos seus irmãos africanos e orientais das então províncias ultramarinas integrantes do império colonial português. Convidamo-vos pois a todos a estarem presentes nesta sessão.

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segunda-feira, março 30, 2009

Um evento, na Nazaré, a não perder

(carregue sobre a imagem para ampliar)

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

A Educação, a bateria e a especialização

Costuma dizer-se, "quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão". É verdade. Falar de educação podem e devem aqueles que sabem, e é esse o caso do Prof. Mário Lopes que, além de professor, pratica há muito o louvável papel de Cidadão, com C maiúsculo, dirigindo um orgão de comunicação social, o Tinta Fresca, onde vai fazendo a leitura do "tempo que corre" e dando.nos a todos um exemplo de inteligência e de cidadania, próprio de sociedades avançadas. Deixamos aqui um texto seu que, para nós, constitui uma das mais completas e profundas peças de reflexão sobre o estado da Educação em Portugal que até agora nos foi dada a ler. Na primeira pessoa, como convém àqueles que não temem. Parabéns pois Mário Lopes, e o nosso Obrigados!

A Educação, a bateria e a especialização
por
Mário Lopes
Professor


Ao contrário da Economia, da Justiça ou da Saúde, em que são habitualmente chamados a pronunciar-se os profissionais da área respectiva, na Educação todos se sentem habilitados a dar palpites sobre o sector e sobre as reformas que são ou não necessárias. Cada vez mais, o estatuto da Educação se assemelha ao do futebol: como toda gente deu pontapés na bola na infância e na adolescência, acha que domina a arte de colocar a bola no fundo da baliza. Na Educação, também todos passámos pelos bancos da escola e/ou somos pais e, por isso, nos sentimos habilitados a dar palpites sobre Educação e a fazer os mais definitivos diagnósticos sobre o sector.

Basta ligar a televisão ou um qualquer jornal, para vermos políticos, economistas, psicólogos, psiquiatras, advogados, jornalistas ou fabricantes de garrafas a pronunciarem-se de cátedra sobre o assunto. E aqui reside o principal erro que se comete em Portugal em matéria de Educação. Há a ideia generalizada de que este não é uma matéria que exija especialização. Contudo, qualquer professor consciente sabe que, pelo contrário, é um sector que exige uma enorme especialização e experiência. Há muitos anos atrás, quando um grupo de adolescentes queria formar uma banda de garagem, quem ficava a tocar bateria era quem não sabia tocar nenhum outro instrumento. Hoje a bateria é motivo de teses de mestrado, mas numa época de pouco conhecimento considerava-se que qualquer pessoa era capaz de dar umas batidas nos pratos. Na política portuguesa também é assim: para ministro da Justiça escolhe-se um advogado ou um juiz, para a pasta da Economia escolhe-se um economista, para a pasta da Saúde vai um médico ou professor de Saúde Pública. Para a Educação, vai qualquer um. Não é necessário nem especialização nem o conhecimento do sector. Extraordinário!

Ninguém se lembraria de escolher um veterinário para ministro das Finanças, mas toda a gente achou natural que a economista Manuela Ferreira Leite ascendesse à pasta da Educação. Também toda a gente achou normal que os engenheiros mecânicos Couto dos Santos e Marçal Grilo (este com algum contacto com o sector) passassem a inquilinos do prédio da 5 de Outubro. Ou que David Justino, autarca e professor do ensino superior, ocupasse as mesmas funções.

Nada mais pacífico, por isso, que Santana Lopes tivesse convidado uma especialista de telecomunicações para o cargo, com os resultados trágicos que se conhecem. Posto isto, quem se admiraria ao ver José Sócrates convidar uma professora de Sociologia, sem qualquer currículo conhecido na área do ensino básico ou secundário para o cargo? Aliás, parece que todas as profissões dão excelentes currículos para ministro da Educação, excepto uma: a de professor dos ciclos de ensino respectivos!

Quando foi conhecido o nome de Maria de Lurdes Rodrigues para a pasta da Educação, todos se interrogaram quem seria a nova titular, uma vez que ninguém a conhecia. Além de algumas obras publicadas, que nada tinham a ver com o ensino secundário, sabia-se que era presidente do Observatório das Ciências em Portugal. Contudo, logo os jornalistas descobriram uma "qualidade" na nova ministra que a qualificava para o cargo: era conhecido o seu mau feitio. Não demorou muito a que os portugueses demorassem a descobrir que o critério "mau feitio" era extensivo aos seus secretários de Estado. Um critério, no mínimo estranho, numa pasta que envolve milhões de pessoas e em que a capacidade de comunicação deveria ser prioritária.

Existem quase 150 mil professores em Portugal a trabalhar no ensino básico e secundário, mas, ao que parece, nenhum sabe suficientemente de educação para desempenhar o cargo. É caso para perguntar o que fazem estes milhares de professores durante dias, meses, anos ou décadas de profissão. Se dia após dia, não se estão a especializar em Educação, então o que estão a fazer? Aprender a fazer horários, conciliando uma complexidade de factores, não é especialização? Dirigir uma escola não é especialização? Gerir uma turma de alunos desestruturados não é especialização? Contudo, parece que em Portugal, todo este conhecimento fundamental não habilita nenhum dos profissionais de Educação a dirigir o ministério respectivo. Extraordinário!

Ao invés, parece que o que habilita alguém para o cargo é nunca ter dado uma aula na vida no sector que vai dirigir! Ou que não faça a mínima ideia do que sejam as dinâmicas dentro de uma sala de aula. Não será esta sistemática ostracização dos professores, afinal, uma falta de consideração da classe política para com os profissionais de Educação deste País? Como se pode conceber que conhecer o sistema por dentro nada valha para a classe política? Como se admite que, se não me falha a memória, nem um único professor tenha sido convidado para ocupar o cargo de ministro ou de secretário de Estado neste País nas últimas décadas? Será que aos professores do ensino básico e secundário está reservado o estatuto de menoridade mental e profissional, apesar das provas de bom senso que revelam todos os dias?

Com o devido respeito, enquanto cidadão, considero que os professores têm cumprido incomparavelmente melhor as suas funções do que a classe política. Se alguma dúvida houvesse, bastaria ver o estado em que encontra este País. Por outro lado, convém lembrar que a responsabilidade das políticas educativas erráticas e inconsequentes é da classe política, não dos docentes, que apenas as executam

As estatísticas e o sucesso educativo

Os portugueses têm assistido, com alguma perplexidade, às queixas da senhora ministra da Educação sobre as taxas de insucesso e abandono escolar. Afinal, a um ministro da República não se pede que se queixe, mas que resolva os problemas. Para isso tem, primeiro, de conhecer a realidade. Contudo, os argumentos que a senhora ministra e os seus secretários de Estado têm trazido para a comunicação social mais não revelam que um profundo desconhecimento do trabalho produzido nas escolas.

As questões são simples e quem está no terreno conhece as soluções há muitos anos. O entendimento entre os professores não é difícil e, regra geral há consenso sobre a forma de resolver os problemas. Aliás, os profissionais, seja qual for o ramo de actividade, conhecem sempre muito bem os problemas da sua área de actuação e, por isso, as soluções também são geralmente consensuais. As dificuldades surgem quando aparecem políticos, que não conhecem a verdadeira dimensão dos problemas, a Governar sectores que não dominam. O resultado traduz-se invariavelmente em contestação dos profissionais em causa e medidas avulsas e inconsequentes. Há anos que os professores deitam as mãos à cabeça com as medidas apresentadas pelos sucessivos governos, cada uma pior que a outra. Com a sua proverbial paciência, professores e conselhos executivos tentam implementar o que, muitas vezes, não tem qualquer viabilidade ou aderência à realidade. Se a autonomia das escolas lhes permitisse rejeitar muitas das directivas absurdas que lhes chegam anualmente, por certo, muito dinheiro pouparia o País e muita eficácia ganhariam as escolas.

Mas vamos às queixas da senhora ministra. Para responder a estes questões, não precisamos de comissões de sábios ou de espertos (tradução livre do Inglês), qualquer professor esclarecido conhece as soluções. Porque é que os alunos não completam o 12o ano? A resposta é curta e simples: o elevado grau de abstracção dos actuais programas do 12º ano não é compatível com o perfil de uma parte significativa da população escolar. O problema não está nos alunos nem nos professores nem nos pais nem sequer no sistema de ensino, mas nos programas, que foram criados com a função de preencher anos pré-universitários. Ora, quem não tem perfil universitário - e são muitos - também não tem perfil para frequentar o actual 12º ano. Se o País quer que a generalidade dos alunos completem o 12º ano tem de lhes propor outras competências, de menor abstracção e complexidade, seja através de cursos profissionais ou outros. E ponto final.

Volto à questão da necessidade de especialização da escola. O Ministério da Educação olha para a população escolar como uma massa uniforme e, por norma, propõe soluções universais para problemas bem distintos. Erro crasso. Já dizia, Descartes que os problemas complexos se devem decompor em problemas simples, para que se possam resolver.

Ora, com a democratização do ensino, toda a população jovem passou a ter acesso à escola. E com ela chegaram novos problemas às escolas que exigiriam soluções diferenciadas. Contudo, o Ministério da Educação continua a comportar-se como se a população escolar tivesse a mesma homogeneidade de há 30 anos. Não tem. A população escolar de hoje é altamente heterogénea, uma consequência da universalidade do ensino.

Os três nós górdios do ensino secundário

1) O atraso mental ligeiro

Numa linguagem simplificada, eu diria que há três tipos de novos utentes que acederam à escola nas últimas duas ou três décadas e que têm sido ignorados pela classe política. Uma dessas classes, de que nunca se fala, é a população escolar menos favorecida intelectualmente. Não há que ter pudor ou vergonha em falar no assunto, eles existem, há que assumir essa realidade. Há 30 anos, não passavam do 1º ciclo, hoje frequentam o terceiro ciclo e pretende-se que cumpram no futuro 12 anos de escolaridade.

A população escolar não deve ser dividida numa grande maioria, inteligente, e numa pequena minoria, deficiente. Não. Há uma fatia intermédia da população escolar que, não sendo considerada deficiente, possui, no entanto, o que definiria, ainda que sem rigor científico, como grau de atraso mental ligeiro. Todavia, não é politicamente correcto admitir que existem alunos intelectualmente limitados, todos preferem assobiar para o lado e fingir que o problema não existe. Por certo, até hoje nenhum ministro da Educação se lembrou de pedir o perfil da população escolar em termos de Quociente de Inteligência (QI). Seria um exercício interessante confrontar esses resultados com as exigências dos programas escolares. Ora, o Ministério da Educação continua a exigir a estes jovens menos dotados intelectualmente aquilo a que eles não conseguem corresponder. Numa estimativa meramente empírica, baseado na minha própria experiência de professor, diria que esta população não andará longe dos 10%, o que, concordemos, é um número muito significativo.

Na minha opinião, há que olhar para este problema de forma integrada pois os cursos profissionais apenas o resolverá em parte. Não esqueçamos que, num mundo globalizado, cada vez se exige mais dos profissionais, seja qual for a área. E hoje, exige-se muito a um electricista, um jardineiro ou um mecânico, bem mais do que estes alunos poderão eventualmente dar. Por isso, mesmo depois de formados, dificilmente estes jovens poderão competir de igual para igual no mercado de trabalho. As limitações intelectuais não desaparecem só porque frequentaram cursos de formação e, por isso, seria importante que o Governo criasse bolsas de trabalho protegidas, quer no Estado quer no sector privado, através de protocolos com as empresas. Não entendo, por exemplo, porque é que pessoas com QI médio ocupam postos de trabalho no sector da limpeza, quando este, por ser menos exigente, deveria ser um sector de mercado de trabalho protegido dirigido para pessoas de QI baixo, que dificilmente conseguirão emprego estável noutras áreas. O que a sociedade não pode é marginalizar estes jovens nem deixar de lhes oferecer uma colocação profissional compatível com as suas limitações intelectuais. E ao ignorar as suas limitações, o Estado está a empurrar involuntariamente estes jovens para a marginalidade social.

2- a) O mundo das famílias desestruturadas

O segundo tipo de utente que tem acedido à escola nas últimas décadas é o das chamadas famílias desestruturadas. Antes de 25 de Abril de 1974, estes jovens eram perseguidos e marginalizados pelos próprios professores, seguindo as directrizes e as práticas do Ministério da Educação. Se não eram expulsos, eram tão maltratados que acabavam por abandonar as escolas na primeira oportunidade. Contudo, hoje fazem parte da população escolar e, reconheça-se, de pleno direito. No entanto, mais uma vez, o Ministério da Educação não os reconhece como segmento de população escolar diferenciado e remete a solução dos problemas que causam no normal desenrolar da vida escolar para as escolas, sem os correspondentes meios. Aqui, as soluções para a resolução deste problema dividem-se. A Alemanha decidiu criar escolas de nível regular, médio e máximo e dar aos pais a opção de escolherem a escola dos seus filhos. A formação dos professores, ao que me informaram, também é diferenciada: os das escolas regulares têm competências reforçadas ao nível do comportamento e integração social e os das outras escolas ao nível científico. Confesso que me inclino, cada vez mais, para esta opção porque é a que mais atenção dá aos diversos públicos-alvo.

A outra opção passa por manter a actual heterogeneidade das turmas. Contudo, também aqui há limites inultrapassáveis, como o número de alunos problemáticos a nível de comportamento por turma. Por norma, um professor consegue gerir satisfatoriamente uma turma com um ou dois alunos problemáticos, mas jamais conseguirá gerir com sucesso turmas com 10 ou 15 alunos problemáticos. Neste caso, o rendimento escolar fica irremediavelmente comprometido. Bem pode o professor "fazer o pino", pois em Educação não há milagres. Ora, hoje em dia o Ministério da Educação impõe que as turmas só possam ser desdobradas se tiverem mais de 30 alunos, exceptuando se tiverem alunos com algum tipo de deficiência. Ora, os alunos desestruturados não são deficientes e, por isso, hoje há turmas com 10 ou 15 alunos problemáticos integrados em turmas de 30 alunos. O resultado só pode ser trágico, quer para os alunos problemáticos, que não têm a atenção que lhes é devida, quer para os restantes, que não conseguem aprender o que deviam. Obviamente, a culpa aqui não é dos professores, mas das regras absurdas impostas pelo Ministério da Educação. Ainda nesta opção, é absolutamente indispensável que a indisciplina orgânica não se torne norma na aula. A sala de aula é um local de trabalho, não o prolongamento do recreio. Contudo, cada vez é mais difícil distinguir o recreio da sala de aula. Ou é o auscultador que o aluno coloca mais ou menos discretamente no ouvido, ou é o telemóvel, ou o caderno e o livro que não são trazidos para a aula, ou a conversa irreverente com o parceiro do lado enquanto o professor tenta explicar a matéria, tudo isto perturba enormemente uma aula e reduz drasticamente a aprendizagem.

Ora, esta indisciplina orgânica deve ser muito mais penalizadora para o aluno do que é actualmente. A solução, do meu ponto de vista, passa por criar um núcleo disciplinar dentro de cada escola. Se um aluno desrespeita sistematicamente as regras de comportamento na sala de aula, deve ser obrigado a sair, mas não para regressar 10 ou 15 minutos depois à aula seguinte, continuando a ter o mesmo comportamento. Alguém que é expulso de uma aula por mau comportamento deveria ficar até ao final do horário escolar numa sala disciplinar, acompanhado por dois professores, com o perfil adequado para o efeito. Isto já é feito, com êxito, em escolas americanas. Outra medida poderia passar pela mudança compulsiva de turma ou até, de estabelecimento de ensino, bastando para tal uma avaliação negativa do comportamento do aluno, devidamente fundamentada, por parte do conselho de turma. Só assim, o combate à indisciplina será suficientemente dissuasor. O actual modelo do processo disciplinar, burocrático, interminável e permissivo, não tem qualquer eficácia e deveria ser reservado apenas a casos de violência, física ou verbal. Muitas vezes, quando chega ao fim o processo disciplinar, já acabou o ano lectivo. E, na maior parte das vezes, a pena é tão simbólica que põe o sistema a ridículo.

2-b) A violência na escola

Ainda dentro do capítulo das famílias desestruturadas, é preciso considerar o caso-limite da violência nas escolas, que afecta, sobretudo, a periferia das grandes cidades. O Ministério da Educação não pode remeter o problema para as escolas, lavando daí as suas mãos como Pilatos. Pior ainda quando decide acusar de incompetência os professores e as escolas em dificuldade, com o extraordinário argumento de que há escolas que têm êxito em situações idênticas.

Aliás, nos célebres vídeos da RTP, a estratégia do secretário de Estado passou (surpresa!) por tentar culpabilizar os professores em causa pela violência nas aulas, quando se percebe claramente que há naqueles alunos uma agressividade perfeitamente anormal que exigiria um apoio especializado acrescido àquelas escolas. Aliás, esta é a estratégia recorrente dos responsáveis do Ministério da Educação: quando algo não está bem, a culpa é invariavelmente dos professores. É a visão simplex da Educação. No caso dos vídeos na RTP, seria previsível que os responsáveis do ME tomassem medidas para resolver os problemas de violência nas escolas. Todavia, logo surgiu a notícia de que o Ministério iria tentar acusar a direcção das escolas de violação do direito de imagem, apesar de ninguém ser identificado na reportagem. Fantástico!

3- O problema da motivação

Um terceiro grupo problemático é o dos alunos que, devido a problemas de motivação ou bloqueios emocionais não conseguem ter um rendimento escolar normal. Muitas vezes, falta de motivação e de resultados não implica mau comportamento nas aulas. Muitos factores podem estar associados a estes problemas. Um deles é conhecido como hiperactividade ou défice de atenção. Segundo o pedopsiquiatra Nuno Lobo Antunes, 7,5% da população escolar tem este problema. Numa escola de 1300 alunos, 100 alunos sofrerão assim deste problema. Uma multidão. E qual é a resposta do Ministério da Educação para este problema, que exige tratamento médico especializado? A informação que tenho é que a única consulta do Estado na região, localizada no Hospital de Leiria, tem uma lista de espera de 7 meses... No sector privado, uma consulta da especialidade pode chegar aos 100 euros, bem longe do alcance da maioria dos pais. Diante deste cenário, que razão tem a senhora ministra da Educação para se queixar dos maus resultados escolares dos alunos? Além destes, existem muitos outros problemas de saúde que explicam o baixo rendimento dos alunos, como dislexia, problemas de visão, audição, etc., muito mais frequentes do que se pode imaginar e que dificilmente os professores conseguem detectar.

Ainda relativamente à motivação, que soluções propõe o Ministério da Educação para os inúmeros casos de falta de acompanhamento dos alunos por parte dos pais? É um erro de palmatória pensar que os professores podem substituir os pais no acompanhamento parental. Com 5 ou 6 turmas de 25 a 30 alunos e horários rígidos, perfazendo 100 a 150 alunos a seu cargo diariamente, os professores não têm nem tempo nem vocação para fazer esse acompanhamento. O resto não passa de fantasias delirantes. Ponto final. A "solução" do Ministério da Educação de alargar os horários escolares para permitir o melhor acompanhamento desses alunos dificilmente terá qualquer eficácia. Primeiro, porque não é em 45 minutos ou mesmo 90 minutos que se consegue dar o mínimo de acompanhamento parental a grupos de 5, 10 ou 15 alunos. Em segundo lugar, mais horas num horário escolar já sobrecarregado soa como um castigo extra para os alunos, que, ao fim do dia, já estão cansados e stressados e só querem ir para casa descansar. Outra medida inconsequente são as chamadas aulas de substituição. Se elas são compreensíveis no 1o ou 2º ciclo, dada a tenra idade dos alunos, que exige uma supervisão apertada, o mesmo não acontece no 3o ciclo e no ensino secundário, onde os alunos já dispõem de razoável autonomia. O argumento da senhora ministra de que se os alunos não estiverem na sala de aula andam pelos cafés a embebedarem-se não colhe. Em primeiro lugar, se as escolas não estão vedadas, é obrigação do Ministério da Educação fazê-lo. Os alunos devem permanecer no espaço escolar durante o tempo do horário escolar. E a esmagadora maioria dos alunos portugueses não são bêbados nem toxicodependentes, são jovens que precisam de brincar e de socializar, coisa que sempre fizeram de forma saudável.

Com esta medida, a senhora ministra impede os alunos de o fazer no recreio. A consequência é que transformam o espaço da sala de aula, que deveria ser sagrado e reservado ao estudo, no recreio. Os resultados desta medida em termos de cultura escolar são, obviamente, catastróficos. As medidas piedosas e populistas do Ministério da Educação, que podem parecer óptimas para pais e leigos na matéria, traduzem-se afinal em mais custos para os contribuintes e resultados nulos. Este é mais um exemplo de que a Educação precisa de especialização e que os especialistas deste sector não são gestores, sociólogos ou engenheiros mecânicos, mas professores. E, já agora, qual é a penalização (ou incentivo) para os pais que nem sequer vão à escola quando são solicitados? Será que o sucesso educativo não passa pela responsabilização de todos os intervenientes no processo educativo? Muito francamente, não me parece sério um discurso que só procura responsabilizar uma das partes e se demite totalmente de responsabilizar os outros intervenientes no processo. Ou será que o Ministério da Educação optou por afrontar apenas os professores por serem apenas 150 mil e não tem coragem de responsabilizar pais e alunos, por estes serem 3 ou 4 milhões?

A avaliação dos professores

a) Os "maus professores"

Em quase 20 anos de ensino, contam-se pelos dedos de uma mão os comportamentos não responsáveis de professores que observei. Por isso, é com perplexidade que ouço falar da necessidade de punir os "maus professores". De que País estamos a falar: da Somália, do Sudão ou do Burkina Faso?! Com certeza os professores são humanos, terão seguramente personalidades muito diferentes, qualidades e defeitos, mas, se há classe que me merece confiança, é a dos professores. De resto, numa profissão sujeito ao escrutínio de tanta gente, dificilmente algum professor não cumprirá as suas obrigações. Qualquer aluno, encarregado de educação ou professor se pode queixar ao conselho executivo da escola e todas as queixas são tidas em conta, consideradas e dado o devido encaminhamento. Os casos poderão depois ser passados à inspecção que os analisa a pente fino e, mesmo assim, raras são as condenações de professores.

Só quem não percebe nada do que são as escolas portuguesas - e muitos são, incluindo a maioria dos jornalistas - consegue acreditar na fantástica tese de que o problema do ensino secundário reside na qualidade dos professores. Lembro que a quase totalidade dos professores são pessoas formadas e, como já sublinhei, têm de dar diariamente provas de bom senso. Na verdade, o que falta nas escolas são regras eficazes a todos os níveis e flexibilidade na gestão. Por isso, é lamentável que a campanha de difamação dos professores parta precisamente dos responsáveis do Ministério da Educação. E mais lamentável ainda é que num dia lancem lama sobre a classe, para logo no dia seguinte virem dizer que não era bem assim, e que a culpa é do jornalista que deu a notícia. A senhora ministra acusou os professores de só se preocuparem com as boas turmas e de as colocarem de manhã para os funcionários da escola colocarem lá os seus filhos. Ora, isto é uma acusação claríssima de corrupção.

Em quase 20 anos de profissão, nunca observei tal prática e, por isso, considero que a senhora ministra difamou os professores. Em primeiro lugar, com a natalidade em queda, não me parece que os professores tenham assim tantos filhos e menos ainda na escola onde leccionam. Da minha experiência, cada escola talvez tenha em média dois ou três filhos de professores a estudar na mesma escola enquanto há 20 ou 30 turmas por escola. Além disso, muitos são os professores que têm os filhos a estudar noutras escolas, públicas ou privadas. Por aqui se vê que essa acusação não tem qualquer base de sustentação. No entanto, a ser verdade esta prática nalguma escola, a obrigação da senhora ministra era mandar a Inspecção averiguar, não lançar lama contra uma classe profissional inteira.

Por outro lado, a comparação dos professores com os médicos é, uma vez mais, reveladora do desconhecimento que a senhora ministra tem da profissão docente no ensino secundário. A cura da doença dos pacientes só depende do médico, mas a aprendizagem dos alunos não depende só do professor. Só por desonestidade intelectual e/ou leviandade se podem comparar situações tão distintas.

b) A avaliação fantasma dos pais

Os alunos não aprendem por um conjunto variado de factores, que já atrás referi, e dos quais o Ministério da Educação é o principal responsável. Os professores fazem o melhor que podem e sabem. De resto, a intenção persecutória dos responsáveis do Ministério da Educação contra os professores e as suspeitas públicas quanto ao seu profissionalismo são claras. A última afronta é a proposta de Estatuto da Carreira Docente. Com efeito, a proposta de avaliação dos professores por parte dos encarregados de educação parte da suspeita não confessada de que os professores não são responsáveis. Assim, os pais (supostamente cidadãos responsáveis) controlariam os professores (supostamente profissionais irresponsáveis).

A medida, tão populista como perversa, mereceu a reprovação da maior parte dos partidos, do Bloco de Esquerda ao CDS, e até da generalidade dos comentadores, sempre tão benevolentes com os actuais responsáveis do 5 de Outubro. A proposta não sobrevive ao mais rudimentar escrutínio. Primeiro, como podem os pais avaliar professores, se nem sequer os conhecem? Por outro lado, se não os conhecem, as informações em que se baseiam são transmitidas pelos filhos, de 10, 13 ou 16 anos! Ora, que maturidade tem uma criança ou adolescente para avaliar um professor? Por outro lado, é preciso não esquecer que entre professor e aluno também existe uma relação de poder. E deixar na mão de um adolescente o poder de avaliar o educador é uma total perversão. O poder do educador não pode ser diminuído pelo receio de uma revanche do aluno. No limite, uma turma de marginais terá o professor na mão, porque se este os afrontar leva com uma avaliação negativa e o seu salário será diminuído. Em termos de relação de poder, é como se um juiz passasse a ser avaliado pelas pessoas que tem de julgar! Um completo absurdo. E nem a tentativa da senhora ministra de tentar fugir à questão, dizendo que este é apenas um acto de avaliação, entre muitos outros, é minimamente admissível. Não é por ter menos peso que a proposta se torna mais séria ou aceitável! Além disso, um trabalhador não pode ver o seu desempenho avaliado por factores subjectivos, de que nunca poderá recorrer, deve ser avaliado em função de critérios objectivos. A avaliação profissional é uma coisa séria, não pode ser uma lotaria.
A insinuação de que os professores não querem ser avaliados é outra peça na campanha contra a classe que circula pelos média. A verdade é que os professores já eram avaliados até aqui, dependendo a aprovação da frequência de acções de formação e do cumprimento das tarefas atribuídas. É certo que o processo de avaliação não era muito exigente, mas a responsabilidade é, naturalmente, dos responsáveis do Ministério da Educação que aprovaram essa legislação, não dos professores, que se limitaram a cumprir o estipulado.

c) O mito da falta de assiduidade

Faço aqui um parêntesis para abordar a questão da assiduidade, que tem sido alvo de uma campanha demagógica contra a classe docente. Em primeiro lugar, o ensino é uma profissão maioritariamente de mulheres. Ora, tradicionalmente, quem cuida dos filhos quando estes estão doentes são as mulheres, sem falar que mulheres engravidam e, por isso, também têm por vezes de faltar por razões de saúde. Por isso, é natural que a assiduidade seja menor entre os professores que noutras profissões. Qual é a alternativa? Querem que as professoras deixem os seus filhos ao abandono? Por outro lado, a falta de um professor tem uma repercussão social ampliada. Quando um funcionário falta numa repartição o utente raramente dá por isso. No caso dos professores, quando um deles falta um único dia, há 150 alunos que dão pela sua falta e que contam a 300 pais. No total, a falta de um único professor é notada por quase meio milhar de pessoas. Por outro lado, não entendo porque os professores não podem repor as aulas em que têm de faltar. Bastaria que, para tal, fosse marcado no horário escolar uma mancha para esse efeito. Aqui está um mecanismo de gestão que, incompreensivelmente, não é utilizado e que poderia minorar bastante os efeitos das ausências pontuais dos professores. Por outro lado, é preciso entender que os professores têm horários extremamente rígidos e a um simples atraso de 5 minutos, devido a trânsito intenso ou outro motivo imprevisto, pode corresponder uma falta de um dia inteiro, se essa for a única aula do dia, ou, no mínimo, a 1⁄4 de dia de falta.

Quantos profissionais deste País têm penalizações tão gravosas, embora compreensíveis, por atrasos de 5 minutos? Além disso, é uma profissão muito exigente em termos de cansaço e desgaste psíquico. Um dia inteiro a lidar com adolescentes irreverentes é uma tarefa duríssima, sobretudo, quando se tem de lidar com turmas problemáticas, sem falar no trabalho que os professores levam para casa. Por isso, por vezes, quando um professor está "de rastos", nada mais lhe resta que parar um dia, mesmo perdendo um dia de férias, para recuperar energias ou até a sua sanidade mental.

Seguramente, não é por causa da assiduidade dos professores que o ensino está mal. A única excepção sucede quando um professor está de atestado médico menos de um mês, uma vez que a legislação só permite a substituição se a ausência for igual ou superior a um mês. O incumprimento do programa agrava-se ainda mais quando a instabilidade da saúde professor o leva a pôr sucessivos atestados médicos de curta duração. São casos raros, mas acontecem e penalizam bastante os alunos. No entanto, cabe ao Ministério da Educação modificar essa legislação e encontrar soluções mais criativas para que os alunos não fiquem sem aulas tanto tempo.

d) Avaliação sim, mas objectiva

De qualquer forma, quem não deve não teme e os professores não têm qualquer problema em ser avaliados, desde que os critérios sejam objectivos e estejam relacionados directamente com o seu trabalho. Não é aceitável que a sua avaliação dependa dos resultados dos alunos, pela simples razão de que os resultados dependem de muitos outros factores, além do trabalho do professor. Por exemplo, um professor com turmas problemáticas nunca pode ter os mesmos resultados que um professor com bons alunos. Por outro lado, isso seria mais um convite ao facilitismo porque, naturalmente, pressionaria os professores a inflacionar as classificações dos alunos. Por outro lado, é clara a intenção deste Governo ao fixar numerus clausus no acesso ao topo da carreira e não querer pagar aos professores, independentemente do seu mérito ou competência. Ora, como quer o Governo atrair para a carreira bons profissionais se não lhes paga em consonância? A proletarização da classe docente é uma realidade típica de países de Terceiro Mundo, não de países civilizados. E mal vai Portugal se tenciona continuar a desvalorizar a profissão de professor. Parafraseando a magnífica frase de Medina Carreira há alguns dias na RTP, também "eu gosto dos determinados, mas é quando acertam." Como já aqui demonstrei, a nomeação desta equipa da Educação é um monumental erro de casting e o País vai pagar caro a política populista e voluntarista que está a ser seguida neste sector. Em vez de mobilizar energias, Maria de Lurdes Rodrigues mais não faz do que incendiar o País e comprar guerras inúteis e despropositadas com os professores.

O descrédito da actual equipa da Educação é total nas escolas portuguesas e, por mais que isto custe a José Sócrates, tal não se deve a questões salariais, mas ao facto da sua competência não ser reconhecida. Não se governa um País com base em estatísticas, sobretudo, quando não se percebe o que está por detrás desses números. E quanto mais Maria de Lurdes Rodrigues brande desajeitadamente as estatísticas, mais expõe a sua ignorância e se põe a ridículo aos olhos dos professores. E muito mal vai uma organização quando os subordinados não reconhecem a competência do chefe.

Mário Lopes.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Frua da cultura em Alcobaça: vá ao Cine-Teatro!

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Já o dissemos algumas vezes, mas não é demais repeti-lo: o Cine-Teatro de Alcobaça, e a sua belíssima programação cultural, merecem toda a nossa estima e atenção. Oxalá que os tempos de "crise" que atravessamos não sirvam de pretexto para, como costumava dizer-se, pouparmos nos botões, imitando o alfaiate inepto após ter gasto todo o dinheiro no tecido. Alcobaça merece-o, e não é com certeza o orçamento do Cine-Teatro que poderá levar à falência a Câmara Municipal. Dizia Mestre Agostinho da Silva que os corpos, alimentados pelo pão, fazem mas não querem, ao contrário das almas que, mesmo sem poderem, querem sempre. A Palavra, veiculada pela Cultura, é o "alimento" das almas. Que não lhes falte nesta altura tão carente de querença.

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sábado, janeiro 24, 2009

Encontros com as Invasões Francesas, no Armazém das Artes

Armazém das Artes - Fundação Cultural
Encontros com as Invasões Francesas
Inauguração dia 31 de Janeiro

Os 200 anos das Invasões Francesas que trouxeram a Portugal morte, destruição e pilhagem, mas também um novo ciclo de gestão das dependências visando preservar a independência, deram o mote ao Armazém das Artes para a realização de uma série de eventos a inaugurar no prócimo sábado, dia 31 de Janeiro, pelas 16 horas, com uma Conferência intitulada "As Invasões Francesas na Beira - suas consequências económico-sociais", pelo Prof. Dr. João Nunes de Oliveira da Universidade de Coimbra, especialista em História Económica e Social. Com a qualidade a que o Armazém das Artes nos habituou, esta é mais uma iniciativa que o Bazar das Monjas recomenda. A história, como acreditava Miguel de Cervantes, não é apenas o registo possível do passado. É também a advertência do futuro, Conhecê-la é por isso estar prevenido.

Visite aqui a página web do Armazém das Artes para mais informação

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terça-feira, janeiro 20, 2009

A Imprensa Regional no Regime Monárquico, no Arquivo Distrital de Leiria

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O Arquivo Distrital de Leiria prossegue a sua agenda de interessantíssimos colóquios sobre a história de Portugal, desta vez versando a Imprensa Regional no Regime Monárquico, assunto que vai ser tratado no próximo dia 28 de Janeiro de 2008, pelas 18 horas, pelas docentes da ESEL Alda Mourão e Catarina Menezes. Saber por exemplo se a imprensa regional era, durante a monarquia (e incluindo naturalmente a fase democrática correspondente à monarquia constitucional), mais ou menos liberal do que é hoje, ou do que veio a ser durante a 1ª República e durante o Estado Novo, é algo que permite entender a génese da imprensa regional e as suas múltiplas relações e obediências aos poderes e às gentes do poder. Vale por isso seguramente a pena, mais uma vez, ir tomar uma bica ao ADL!

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sexta-feira, janeiro 02, 2009

Cabeça da Estátua de S. Bernardo entregue à Paróquia de Cós

Na sequência do trabalho de investigação e da exposição subsequente intitulada "Um Reencontro com a História", sobre a vida de S. Bernardo e na qual esteve presente ao público a Provável Cabeça de Uma Estátua de São Bernardo de Claraval, Datada de 1669, Após Mais de Um Século de Ausência do seu Lugar Original, Um Nicho Exterior Situado no Lado Sul da Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Cós, o Bazar das Monjas e Nuno Monteiro (o proprietário da peça) entregaram no passado mês de Março de 2008 à Paróquia de Coz, ao cuidado do Revº Pároco José da Silva, a referida peça a fim de ser restituída ao seu lugar original. A entrega da peça a quem de direito, que ficámos na altura de vos dar conta, foi desta forma realizada com sucesso, aguardando-se agora a recuperação da bela estátua decapitada. Fica pois aqui, embora com um considerável atraso,que a nós unicamente se deve, a informação.

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sexta-feira, dezembro 12, 2008

CONCERTO DE NATAL NO MOSTEIRO DE CÓS

Do nosso vizinho sempre atento Nas Faldas da Serra retirámos a seguinte sugestão:
A NOSSA APOSTA DA SEMANA: CONCERTO DE NATAL NO MOSTEIRO DE CÓS, PELA CAMERATA ANTIQUA, SOB A DIRECÇÃO DE VASCO NEGREIROS

As iluminadas e sempre apetecíveis sonoridades musicais de Johann Sebastian Bach e Georg Friedrich Händel, interpretadas pela Camerata Antiqua, sob a direcção do maestro Vasco Negreiros, num concerto que terá lugar no lindíssimo Mosteiro de Cós (a poucos quilómetros de Alcobaça), no próximo domingo, 14 de Dezembro, às 18 e 30, são a nossa grande aposta desta semana. Do programa desse imperdível concerto constam o salmo Laudate Pueri Dominum» e a Water Music (Música Aquática), de Händel, bem como o 1.º Concerto Brandemburguês e a cantata Fallt Mit Danken, Fallt Mit Loben, de Bach, motivações incontornáveis para que nesse final de tarde todos nos dirijamos àquele belo monumento, a fim de ouvir e conviver com música de alta qualidade. Esperando que o espectáculo se concretize no chamado Coro das Religiosas daquele mosteiro, que é o local com melhor acústica do concelho de Alcobaça (e arredores), aqui fica o nosso concelho: vá e aprecie!

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sábado, dezembro 06, 2008

Boa Prenda de Natal Para Cós

FELIZ NATAL!

Do nosso amigo sempre atento Terra de Paixão, retirámos o seguinte:

Boa Prenda de Natal Para Cós

Cós recupera Farmácia que perdeu há 8 anos
Cós deverá recuperar, em breve, a farmácia que perdeu há oito anos.Foram publicados em Diário da República as farmácias candidatas admitidas a concurso público.

Há 15 interessados em abrir uma farmácia naquela freguesia.O concurso para a reabertura da Farmácia em Cós, da responsabilidade da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde I.P. (Infarmed), foi uma exigência da Junta de Freguesia de Cós, presidida por Álvaro Santo e da Câmara Municipal de Alcobaça.

O Presidente da autarquia, Gonçalves Sapinho, diz que o concurso é uma «conquista que resulta do trabalho e pressão desenvolvidos por Alcobaça». A população de Cós tem utilizado as farmácias de Alcobaça, Pataias e Juncal bem como a ajuda do Centro de Bem Estar Social de Cós, que se responsabiliza pelas receitas médicas dos utentes. Uma situação que, em breve, deixará de ser necessária.

In Rádio Cister

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domingo, novembro 16, 2008

Novos documentos para a História do Caminho Real entre a Pederneira e S.Martinho do Porto no Século XVIII

Fonte da imagem: aqui

Mais um valioso contributo do Dr. Pedro Penteado para o conhecimento da história da região dos antigos Coutos de Alcobaça,
e no caso vertente do Caminho Real, através do qual se podia ir desde Cós até S. Martinho do Porto com passagem pela bela vila da Pederneira. Pela sua importância reproduzimo-lo aquí na íntegra, com ligação também para o nosso vizinho Tinta Fresca onde também já se encontra publicado.

Novos documentos para a História do Caminho Real entre a Pederneira e S.Martinho do Porto no Século XVIII
*
por Pedro Penteado**

1. No inicío de Junho de 1765, a Câmara da antiga vila da Pederneira solicitava à Coroa a reparação da calçada entre a ladeira da Barquinha (à Ponte da Barca) e Famalicão, no caminho para S.Martinho, de modo a facilitar o transporte das madeiras do Pinhal de Leiria para aquele porto, de onde eram embarcadas para o Arsenal Real, em Lisboa (1). Para aferir a validade do pedido, o Rei D. José I mandava ao concelho da Pederneira, o Provedor da Comarca de Leiria, tendo este confirmado a necessidade da obra através de um inquérito (“sumário de testemunhas”) a vários membros da élite local. Um dos inquiridos foi o ourives do Sítio José Ribeiro Rosário Engelino, que viria anos depois a ser mordomo da Real Casa e Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. No seu testemunho confirmava que o caminho se encontrava “muito damnificado por cauza do grande Inverno do anno proximo passado”, sobretudo “na parte em que ainda não há calçada, com arneiros e barrocas, e nas em que existia já calçada arruinou-ce esta principalmente na ladeira junto à Barquinha”. O Provedor, Joaquim Xavier Morato Boroa, escreveria depois ao Desembargo do Paço explicitando que a calçada, nomeadamente na ladeira, se tinha destruído, chegando a cair “parte da estrada, para cujo conserto se precizava de hum muro forte, pella banda de bacho, por não se poder alargar a estrada pella de sima, por lhe ficar emimente hum grande monte”. Acrescentava ainda que tinha verificado esta situação, “hindo pessoalmente ver o dito caminho, o qual está invadiável”, intransitável.

2. Desde o início do Reinado de D. José, esta era a segunda vez que a Coroa era chamada a reparar aquele caminho público. Com efeito, nove anos antes, no Inverno de 1756, através de Decreto, o monarca constatava que nos “caminhos que correm desde a villa de Pederneira até à de S. Martinho” se achavam arruinados e que por este motivo se tornava “impracticável a passagem de toda a qualidade de carruagens”, entre as quais se incluíam também os que se dirigiam ao Santuário do Sítio de Nossa Senhora de Nazaré, bem como dos “carros e gados dos lavradores” que transportavam as madeiras para o porto de S. Martinho. Por esse motivo, ordenava que as “Câmaras das villas da Pederneira, Cella, Alfeizerão e S. Martinho” obrigassem “todas as pessoas que têm fazendas nos seus respectivos destrictos, junto à mesma estrada”, a abrir “sem demora alguma … vallas, ou aquedutos” para a saída das águas (2). Na obra, que não se chegou a terminar, ficaria como Intendente o Desembargador José Gregório Ribeiro, (que também era administrador da Real Casa da Senhora de Nazaré), até ao ano do seu falecimento, em 1762.

3. O caminho, sobretudo na referida ladeira, não resistiria ao Inverno e inundações de 1764-1765. Apenas no final desse ano, após a já referida solicitação da Câmara da Pederneira e a averiguação do Provedor da Comarca, Morato Boroa, e depois da devida autorização régia, a obra viria a ser adjudicada a José Pires da Lomba, de Salir de Matos, por 400.000 réis. Ficaria sobre a responsabilidade do Governador do Forte de S. Miguel, no Sítio, José Caetano Lafetá.

4. O caminho público entre a Pederneira e S. Martinho, pela ladeira que conduzia à Barquinha, atravessado as pontes da Barca, em direcção a Famalicão, iria tornar-se, a partir de então, a via preferencial para a ligação entre as duas vilas dos coutos de Alcobaça, relegando para segundo plano o percurso pela Serra da Pescaria, utilizado, por exemplo, por Brito Alão e pelos romeiros do Sítio, ao longo do século XVII. Ao mesmo tempo, apesar da sua qualidade não ser a melhor, tornava-se parte do principal itinerário terrestre entre aquele centro de peregrinação e a capital do Reino.

5. No final do século XVIII, transitaria por este caminho, em direcção ao Sítio, o aristocrata e romancista inglês William Beckford, que nos deixaria o seguinte relato: “Tivemos de atravessar o mesmo rio várias vezes, por pontes em ruína como as que encontráramos nas imediações de Alcobaça. O meu reverendo companheiro não conseguia reprimir uma sensação de terror quando passávamos aos solavandos sobre grandes arcos desprovidos de protecção lateral, sentimento que as minhas fervorosas exortações para que tivesse fé em Santo António não conseguiam aplacar. Optou então por caminhar no meio da poeira e dos excrementos”. Beckford passaria depois pela ladeira da Barquinha, em direcção à “opulentíssima granja senhorial” dos frades bernardos, na Pederneira, antes de ir ao Santuário, deixando-nos a seguinte nota de viagem: “Depois de pelo menos três ou quatro destas perigosas travessias, subimos um monte bucólico coberto de urze onde pastavam cabras e encontrámos uma longa fila de camponesas com diversas oferendas para Nossa Senhora da Nazaré. Pouco depois surgiu o santuário para onde se dirigiam em peregrinação, alcandorado na saliência de um penhasco que descia em declive para o Atlântico” (3).

6. Este trajecto viria a ser posteriormente secundarizado, principalmente com a criação, a partir de 1902, de uma estrada alternativa à ladeira da Barquinha e ao caminho real que conduzia à vila Pederneira, facilitando a viagem a todos os que, vindos do litoral oeste, buscavam a Praia da Nazaré e o Sítio. Para este facto contribuiu ainda a progressiva perda de importância daquela antiga sede do concelho, que deixaria de o ser, a favor da Nazaré, em 1912. O referido troço do caminho real tornava-se, a partir de então, de utilidade limitada, caindo no esquecimento dos homens, desvalorizado pelos descendentes daqueles que outrora tanto o procuraram proteger.

7. Em 1989, próximo da ladeira da Barquinha, a Fonte da Cabra (4), que servira antigos romeiros e bestas antes de se abalançarem ao caminho, era soterrada pela construção de um novo acesso ao Valado dos Frades, constituindo o primeiro sinal de que a destruição dos antigos itinerários sociais, que marcaram a vida e a identidade dos nossos antepassados, em breve iria ser ampliada, em nome do Progresso.

8. Nos nossos dias, tornou-se imperativo evitar a destruição do que resta deste património colectivo e lutar pela sua salvaguarda e valorização, quer potenciando-o através de iniciativas de promoção do turismo cultural local, quer sabendo integrá-lo em estratégias de desenvolvimento sustentado.

_________________________________
(*) O presente artigo tem como principal objectivo divulgar o conteúdo dos dois documentos transcritos no final, integrando-os no respectivo contexto de produção, de modo a alargar o estado dos conhecimentos sobre o Caminho Real entre a Pederneira e São Martinho do Porto, no momento em que se debate, na Nazaré, a pertinência da preservação dos vestígios que chegaram até nós, entre aquela povoação e a Ponte da Barca. Os documentos encontravam-se inéditos, em termos de publicação, tendo sido apenas citados na nossa obra Peregrinos da Memória. O Santuário de Nossa Senhora de Nazaré (1600-1785). Lisboa: CEHR, 1998, p. 139.

(**) Director de Serviços de Arquivística e Apoio Técnico na Direcção-Geral de Arquivos. Assistente convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Membro do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.

1 Ver Documento 1.
2 Ver Documento 2.
3 BECKFORD, William - Alcobaça e Batalha. Recordações de viagem. Intr. de Iva Delgado e Frederico Rosa. Lisboa: Veja, 1997.
4 SILVA, Abel da; PENTEADO, Pedro - A ponte da Barca. A fonte da Barca. Voz da Nazaré. N.º 145, (Junho de 1989), p. 1 e 3.

***
Documento 1


1765, Junho, 5, Pederneira – Representação da Câmara da Pederneira ao rei D. José I solicitando a realização de obras na via entre a Barquinha e Famalicão. Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Desembargo do Paço, Corte Estremadura e Ilhas, mç. 125, doc. 29.
“Senhor: Por Decreto de V. Magestade de 14 de Dezembro de 1756 remetido do Tribunal do Dezembargo do Paço se expedio a Provizão, de que hé a copia que com esta offerecemos em pública forma, pella qual foi V. Magestade servido ordenar ao Senado da Camara desta villa da Pederneira, e das villas da Cella, Alfeizerão e S. Martinho, a factura e ereção da calçada desde o destricto da Barquinha athé Famalicão, ou athé donde pedisse a necessidade, para o necessário e precizo transporte das madeiras dos Pinhaes de V. Magestade para o porto de S. Martinho, precedendo para a factura e conservação da mesma calçada todas as cautellas e resguardos advertidos e recomendados na mesma Provizão, a qual em tudo e por tudo o deu à sua execução pello Intendente nomeado para a dita obra, o Dezembargador Jozé Gregório Ribeiro, hoje defunto, que a fez rematar por menos aos officiaes que a continuaram athé àquelle desctricto, que lhe asignou, aonde poderião suprir e chegar os quatrocentos quinze mil cento e quatro réis que naquelle tempo havia de acréscimo no cabeção da ciza desta villa (…) houve por bem aplicar para a referida obra.
Correram os annos e como da parte de sima da referida calçada ficava eminente a ella hum grande monte, principiou este a dezunir-se e desfazer-se com a decurrência de muitas ágoas invernozas, de sorte que veio a maior parte da mesma calçada arruinar-se, invadiável aos lavradores, com prejuízo grave das conduçoens e transportes das madeiras, a que precizamente se deve acudir com prompto remédio e providência necessária, reidificando-çe aonde precizar de reparo. E como naquelle tempo se não podia concluir inteiramente toda a obra athé o lemite de Famalicão, asignado na dita Provizão, por não chegar para toda ella aquelle acréscimo que então havia, será muito conveniente que V. Magestade mande continuar na mesma calçada athé se concluir de todo, e reparar juntamente os damnos e ruínas de que precizar, a que já se fez, aliás, perecerá de todo , com detrimento grave dos povos que vadeam, que transportam as madeiras, ordenando V. Magestade que para concluir a dita obra se aplique tambem para a factura della todo o acréscimo que com haver no cabeção das cizas desta villa, nomeando logo Intendente à dita obra, visto ser falecido o Dezembargador nomeado. E nós lembramos que só poderá dezempenhar o dito ministério com todo o cuidado e zelo Jozé Caetano de Lafetá e Souza, governador da Fortaleza de S. Miguel do porto desta villa, sogeito de conhecida nobreza e capacidade e que por tudo se faz independente dos lavradores e operários que se hão-de occupar na referida obra, de que muito se preciza, e será de grande conveniência e adiantamento a ella que V. Magestade o nomee Intendente facultando-lhe todo o mando e jurisdição advertido na Provizão inclusa, e concedida ao Intendente defunto. Toda a expedição e brevidade sobre esta matéria se faz preciza e necessária antes que chegue o Inverno, que occazione mayor ruína à referida calçada e seja de mayor trabalho e despeza o reparo della, para o que se fes precizo pôr na prezença de V. Magestade esta conta, para por ella detreminar o que for servido. Escrita em Câmara, nesta villa da Pederneira, aos 5 de Junho de 1765. Eu, Antonio Correa Silva, tabeliam, a fis escrever no impedimento do escrivam da Câmara. O juiz Francisco Paes. O vereador Manoel Ferreira. O vereador Atanázio Lourenço (?). José Nunez vereador. [Assinatura] De [cruz] + . O Prior Francisco Ribeiro Borges”.

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Documento 2


1756, Dezembro, 14, (post.), Belém - Cópia do Decreto do rei D. José I pelo qual mandou realizar uma calçada, pelo menos, entre a Barquinha e Famalicão. ANTT, Desembargo do Paço, Corte Estremadura e Ilhas, mç. 125, doc. 29. “Sendo informado que os caminhos que correm desde a villa de Pederneira até à de S. Martinho se acham arruinados, e que por esta cauza se faz impracticável a passagem de toda a qualidade de carruagens e muito prejudicial aos carros e gados dos lavradores que transportam as madeiras dos meus pinhaes de Leyria para o porto de S. Martinho, sou servido ordenar que as Câmaras das villas da Pederneira, Cella, Alfeizerão e S. Martinho obriguem todas as pessoas que têm fazendas nos seus respectivos destrictos junto à mesma estrada, para que logo e sem demora alguma abram vallas, ou aquedutos, pelos quaes devem ter sahída as ágoas, segundo o que cada hum tem por obrigação de direito, ou postura das mesmas câmaras, e conforme os uzos e costumes que há nas ditas terras a este respeito. E quando haja algum que duvide da sua obrigação, as mesmas câmaras determinarão a dúvida de plano, sem ordem ou figura de Juízo, e o que determinarem o farão dar à execução sem admitirem embargos, appellação, aggravo, ou outro qualquer requerimento que suspenda a execução da obra. E que logo ao mesmo tempo se faça huma calçada desde o sítio da Barquinha até Famalicão, ou até onde pedir a necessidade, para a qual concorrerão com seu trabalho todas as pessoas que costumam trabalhar em similhantes obras, o dia, ou dias, [que] segundo o estillo de cada huma das villas, ou posturas das câmaras dellas devem ajudar à dita obra, muito especialmente os lavradores, porque estes ham-de servir-se e utilizar-se mais da servintia da estrada, e quem cauzam mais damno e a ruína della. E para a maior despeza da dita obra se aplicarão os quatro contos quinze mil cento e quatro réis que há de acréscimo no cabeção da siza da villa da Pederneira até o prezente anno, e tudo o mais que for crescendo pelo tempo adiante no dito cabeção, até com effeito ser paga a dita obra, a qual se porá a lanços para se rematar a quem por menos a fizer, ou se fará a medição pelo preço commum da terra. E será Intendente desta obra o Dezembargador Jozé Gregório Ribeiro, Juiz do Tombo dos Pinhais, que assistirá a dita obra, para que se faça com a segurança e a economia necessaria, como para a fazer rematar, ou ajustar por braças, pelo preço comum da terra, segundo o que melhor lhe parecer, e no seu impedimento poderá nomear Inspector a pessoa que lhe parecer mais apta à dita obra, para fazer trabalhar nella em ordem a que se conclua com toda a brevidade. E ao dito Dezembargador dou toda a jurisdição necessária para obrigar os juízes, vereadores, e mais justiças das ditas villas a cumprirem tudo a que são obrigados, para que logo se principie e conclua a dita obra, procedendo contra elles como lhes parecer justiça no cazo das suas omissões. E para que a mesma obra se possa conservar sem grande despeza, mando ao Corregedor da Comarca de Leyria que na correição que fizer nas ditas villas, pergunte e examine se as ditas câmaras fazem guardar as posturas que respeitam a conservação das estradas públicas, e proceda contra os culpados na forma da Ley. A Meza do Dezembargo do Paço o tenha assim entendido, e o mande executar, passando para isto as ordens necessárias, ordenando juntamente que este meu Real Decreto se registe na câmara das ditas villas. Bellém quatorze de Dezembro de mil setecentos e cincoenta e seis. A Rubrica de S. Magestade (…)”.

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domingo, novembro 02, 2008

O Total Apoio e um Voto de Louvor do Bazar das Monjas ao magnífico trabalho de esclarecimento de Paulo Bernardino

Porque nos identificamos plenamente com o espírito do texto seguinte, no qual Paulo Bernardino delineia muito fundamentadamente uma visão para o futuro do Mosteiro de Alcobaça, reproduzimo-lo aqui na íntegra. Desejamos que o Mosteiro-irmão de Santa Maria de Cós, não fique esquecido e que a recuperação da sua envolvente histórica possa seguir uma filosofia semelhante àquela que Paulo Bernardino defende, e muito bem, para o Mosteiro de Alcobaça. Há muito trabalho a fazer, lá como aqui em Cós, e por isso também fazemos Votos para que não haja muitas mais delongas e penosos interregnos, que a ninguiém dignificam e ao Estado (todos nós) só empobrecem. Quanto ao sonho, não esqueçamos as palavras sábias de Rómulo de Carvalho (António Gedeão): afinal é (ou não) ele que comanda a vida?

O Mosteiro de Alcobaça, de 1834 a 2008

por Paulo Bernardino

A extinção das Ordens Religiosas, em 1834, colocou imediatamente o Mosteiro de Alcobaça sob a tutela jurídica do Estado, o que determinou a afectação dos espaços desocupados para instalação de diversos organismos de tutela estatal, tal como aconteceu com muito outros mosteiros em todo o país.

Em 1836 iniciou-se a ocupação militar do edifício, com a afectação de parte das instalações ao Regimento de Artilharia 10. Em 1837, o Ministério da Fazenda e a Junta do Crédito Público, através, respectivamente, das Portarias de 04 de Agosto e de 29 de Agosto, afectam à “Câmara Municipal do concelho de Alcobaça (uma) parte do edifício e suas pertenças do extinto mosteiro de S. Bernardo daquela vila, de que se lhe deu posse em 10 de Fevereiro de 1838, para nela se estabelecerem o Tribunal Judicial, paços do Concelho, Aulas de Ensino primário e secundário, Administração do Concelho e Cadeia Pública.

A instituição militar tutelou os espaços que lhe foram afectados até 1928, altura em que o Decreto nº 15:146, de 9 de Março, estabeleceu um novo protocolo de cedência para instalação definitiva do Asilo de Mendicidade de Lisboa no Mosteiro de Alcobaça. Em 1973, o Decreto-lei nº 1/73, de 3 de Janeiro, criou o Lar Residencial de Alcobaça, extinguindo o Asilo de Mendicidade. A nova instituição permaneceu instalada no Mosteiro de Alcobaça até 2002, data da sua transferência definitiva para o novo edifício de Évora de Alcobaça. Em Abril do mesmo ano, um Acordo assinado entre o Ministério da Cultura e o Ministério do Trabalho e da Solidariedade celebrava a futura afectação definitiva dos espaços ao Mosteiro de Alcobaça/IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), integrando-os definitivamente no Programa de Reabilitação dos Conjuntos Monásticos.

As entidades identificadas nos parágrafos supra ocuparam a totalidade do conjunto monástico até 1928, data em que a Administração Central iniciou um amplo programa de obras de conservação e reabilitação do património identitário nacional, programa que, no Mosteiro de Alcobaça, levaria a uma intervenção profunda visando a restituição do núcleo medieval à traça original. A sua boa execução pressupõe espaços libertos, o que determina o arranque de um programa paralelo de resgate dos direitos de propriedade a favor do Estado. Este seria finalmente concluído no final da década de 1990, com a aquisição pelo IPPAR dos prédios rústicos que permitiram fechar a Cerca nos limites actuais, definidos, a nascente, pelo Rio Alcoa, e a sul, pela Levada e pelos muros de delimitação de propriedade.

Aquando do lançamento do programa de resgate, na década de 1930, os Claustros do Cardeal e do Rachadoiro ficam excluídos, sendo progressivamente ocupados pelo Asilo de Mendicidade de Lisboa, em resultado, precisamente, da obrigatoriedade de desocupação do Dormitório medieval no quadro do Programa de conservação e restauro a cargo da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN). Subsequentemente, os dois claustros vão ser objecto de um segundo programa de transformação, para adaptação dos espaços às novas realidades funcionais. O primeiro, que fora da responsabilidade da instituição militar, visara fundamentalmente a adaptação dos pisos térreos às especificidades das armas instaladas: artilharia e cavalaria.

Desta história de ocupações e transformações, o que importa verdadeiramente ressalvar é que, mesmo com as obras de adaptação para adequação às missões das novas entidades que nele se foram sucedendo, o mosteiro que chegou até nós é um edifício que, arquitectonicamente, não perdeu a “memória” da sua existência como espaço conventual, antes a conserva, no que ela tem de fundamentalmente identificador.


Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça

Reabilitação e Revitalização do Conjunto Monástico

Les biens du patrimoine mondial peuvent accueillir différentes utilisations, présentes ou futures, qui soient écologiquement et culturellement durables. L’Etat partie et ses partenaires doivent s’assurer qu’une telle utilisation durable n’a pas d’effet négatif sur la valeur universelle exceptionnelle, l’intégrité et/ou l’authenticité du bien. En outre, toute utilisation doit être écologiquement et culturellement durable. Pour certains biens, l’utilisation humaine n’est pas appropriée.” [1]

Pensar um Programa de Reabilitação para o Mosteiro de Alcobaça implica necessariamente pensar a sua utilização no quadro de um programa de desenvolvimento regional no qual aquele seja parte activa, no presente, mas, sobretudo, em termos de desenvolvimento de longo prazo. Pensar esta opção implica obrigatoriamente ter bem presente que o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça não é o núcleo medieval, mas a totalidade do conjunto abacial, incluindo a cerca.

Esquecer que o Mosteiro é este “todo”, alienando, como está previsto, a fins exclusivamente privados o equivalente a dois terços do monumento, é cometer um grave erro científico e de política cultural, evidenciando uma perspectiva fragmentada da compreensão de um processo histórico de longa duração, o qual é determinante naquele que é o seu valor histórico e cultural, o seu valor de “memória”. É também um erro estratégico em termos da sua rentabilidade económica futura no sentido em que a sua capacidade de atracção “turístico-cultural” fica substancialmente diminuída com esta “subtracção” ao “valor de uso” do monumento da memória material dos três últimos séculos da sua história e, por via desta, da fruição e da compreensão global e integrada das mais importantes marcas da identidade cisterciense: a auto-suficiência construída naquela relação única com o ambiente através da hidráulica.

De igual modo, é anular, ab initio, a possibilidade de devolver o mosteiro à sua função originária, tornada possível com a saída do Lar Residencial de Alcobaça e com a definitiva transferência para o Ministério da Cultura da área que lhe estava afecta - Claustros do Cardeal e da Biblioteca e Cerca a nascente da Levadinha.

A revitalização deste património pela via da instalação de comunidades monásticas constitui hoje o percurso natural e preferencial de reabilitação e salvaguarda em toda a Europa, com maior desvantagem do que em Alcobaça, na medida em que este é um dos raros mosteiros europeus que chegou até aos nossos dias “intacto” na forma e na sua monumentalidade. Com efeito, se na Europa esta opção implica frequentemente a construção de obra nova ou de grandes obras de reconstrução e reabilitação arquitectónica do existente, tal não é necessário em Santa Maria de Alcobaça, onde os corpos seis e setecentista, construídos precisamente para fazer face à modernização da Ordem, se mantêm praticamente inalterados, permitindo a recuperação de todas as funcionalidades fundamentais de carácter interno, incluindo a articulação espacial com o conjunto medieval e com a Igreja, imprescindíveis à celebração do Oficio Divino, à Liturgia das Horas.

Como nos lembra Bernard PEUGNIEZ, na Introdução ao seu Routier Cistercien, o turista cisterciense é um turista especial, uma espécie de peregrino moderno, que procura na interioridade do claustrum o que nenhum outro monumento lhe pode oferecer. Uma interioridade de valor espiritual incalculável se o mosteiro for “uma comunidade viva” :

« La visite d’une abbaye cistercienne n’est pas la visite d’un lieu comme les autres. Si le touriste, ce pèlerin moderne, s’en tient à l’extérieur de son architecture, il risque fort d’être déçu ; (…) La plus mauvaise solution est le passage « en coup de vent », juste le temps d’une prise de vue ou l’achat d’une carte postale. Quand il est possible, l’idéal est de séjourner à l’abbaye, ou, tout au moins, y demeurer quelques heures ; alors il convient de laisser parler les pierres, de les écouter, de tenter de saisir leur beauté et de les comprendre, de comprendre aussi ceux qui les ont taillés et assemblées.
(…)
Il y a (…) un public cistercien. Puisse ce public qui franchit de plus en plus nombreux la porte de ces lieux, trouver un accueil digne d’une abbaye, entendre un langage qui parle au cœur (…) des visiteurs qui exigent d’être bien, l’espace d’une pause dans leur vie pour une expérience qui doit les attirer et surtout les « fidéliser » à revenir quand le besoin s’en fait sentir. (…) Quand ce public passera la porte de sortie, ce que l’importera surtout (c’est) le message que l’abbaye lui aura transmis (…) qu’il comprenne, à partir de ce qu’il voit, des choses qu’il ne voit pas : le silence, le dépouillement intérieur, la vie communautaire, la durée dans le temps, la sécurité, la solidité, la régularité, la rigueur ; la paix, la douceur, la fraîcheur, l’humilité, la beauté, la perfection, le mystère… »

O Mosteiro de Alcobaça perdeu os seus últimos monges em 1833. Até há muito pouco tempo, não julgávamos que o seu regresso fosse possível: ao mosteiro medieval era impraticável; os claustros seis e setecentistas estavam ocupados com o Lar Residencial de Alcobaça e, embora a sua saída fosse um facto a curto prazo, desconhecia-se o que estava por baixo da sua “pele”. Afortunadamente, o que lá está é quase tudo. E este quase tudo, incluindo a preciosa Cerca, permite que o mosteiro volte a ser um “mosteiro ” sem deixar de ser aquilo que agora é. Podendo ser muito mais.

A Valorização económica do Património

Todos os estudos promovidos pela Autarquia ou pela Administração Central referem o Mosteiro de Alcobaça como peça estratégica de desenvolvimento regional, assumido como um potencial competitivo, um gerador de sinergias, um organizador do território [2]. Dimensão estratégica cuja concretização tem implícito um elevado investimento, nem sempre fácil de entender pelos cidadãos.

A valorização económica do património cultural é, actualmente, uma prática comum, pretendendo-se chegar a conclusões que orientem as opções estratégicas em termos de sustentabilidade do valor de uso atribuído aos monumentos e da reprodutividade do investimento, considerados os seus efeitos sobre:

1) o seu valor-de-não-uso [3], entendido como o conjunto de valores que lhe são atribuídos por aqueles que os não visitam directamente e que visam traduzir a sua ligação à existência de determinado património e a vontade de o transmitir às gerações futuras;

2) a sustentabilidade das opções assentes na compatibilidade de usos com o valor cultural intrínseco, considerada a irreversibilidade das soluções e/ou a decorrente perda de valor presente e futuro;

3) a capacidade de atracção turística, entendida esta como geradora de reprodução de investimento;

4) a disposição dos turistas para pagar ou para aceitar, entendendo-se esta última como aceitar ou a privação da prestação de um determinado serviço que se venha a revelar incompatível com a salvaguarda (e/ou) da identidade do monumento ou a privação da identidade do monumento em detrimento do interesse económico da exploração turística.

Por ser evidentemente relevante, importa salientar que, quando colocados perante a opção “sacrifício” do valor-de-não-uso, os turistas optam claramente pelo não retorno para uma segunda visita. Com a agravante do factor “passa palavra” a repercutir-se em opções de potenciais turistas terceiros.

No estudo encomendado pela autarquia à SAER e dado à estampa em 2004, lê-se na página 47, que “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas não desaparece a necessidade de projectos configurantes, que sejam produtores de sentido e de ordem, de viabilidade e de sustentabilidade das actividades. Não é possível retomar a existência, a organização e as funções que as ordens religiosas tiveram em Portugal e na Europa, mas continua a ser necessário responder à mesma necessidade de configuração a que, na sua época histórica, estas instituições de base espiritual souberam responder. Neste sentido, a mensagem de Alcobaça é mais do que uma curiosidade incidental, ela tem um valor actual que, se trabalhado com a ambição adequada, poderá ser um importante estímulo de modernização.

Já o QREN-PROGRAMA OPERACIONAL DO CENTRO 2007-2013 [4], que identifica Alcobaça como integrando o sub-sistema urbano embrionário do Oeste, embora de forma não tão explícita porque não é esse o seu objectivo, deixa clara a importância dos eixos “Património natural e paisagístico” e “Património histórico e arquitectónico e identidade cultural” como fundamentais para os dois factores estruturantes essenciais da região: “ incluindo um melhor acesso às tecnologias de informação e comunicação (...) e uma melhor oferta de serviços às populações (cultura, desporto, lazer, comércio, etc.); e consolidar e qualificar os sistemas urbanos territoriais, dotando-os de novas funções urbanas,promover a competitividade das cidades através da requalificação urbana e da criação de novas actividades do terciário superior, designadamente nos domínios relacionados com as identidades diferenciadas e com a especialização produtiva dos territórios por elas polarizados.”

No caso do Mosteiro de Alcobaça, a necessidade de uma ponderação séria e pública sobre os efeitos custo-benefício a longo prazo de opções ditadas por uma má conjuntura é, neste contexto, um dever institucional irrevogável e inalienável. Um menor custo financeiro agora pode revelar-se um estrondoso “mau negócio” e uma perda irreparável para o património cultural português, um desprestígio internacional imenso para um país que tem o privilégio de possuir “intacto” um dos maiores e mais belos mosteiros cistercienses da Europa, uma peça chave na construção da memória material da sua construção como Nação independente no contexto do processo de construção dessa mesma Europa.

A reabilitação como equipamento público e a opção Hotel de Charme

1.Os custos da reabilitação como equipamento público

O primeiro e mais grave problema com que nos deparamos quando pensamos num programa de conservação, salvaguarda e valorização do Mosteiro de Alcobaça é o da sua dimensão e, correlativamente, os enormes custos que a execução daquele programa e a manutenção continuada futura do conjunto monumental representam para o erário público. O segundo problema, que só pode equacionar-se em simultâneo com o primeiro, é o que respeita ao carácter da intervenção, considerados os fins da mesma:

a) conservação e restauro do existente, no contexto de um projecto de reabilitação arquitectónica integral, em resposta a um projecto de elaboradas soluções programáticas, compartimentadas e exigindo complexas infra-estruturas técnicas;

b) um programa de conservação e restauro do existente, assente numa proposta que compatibilize a obrigatória opção programática institucional e nacional, de “exploração” do “valor de memória” do monumento, com um programa de reabilitação minimalista nas opções e nas soluções técnicas a instalar, orientadas para a infra-estruturação segundo um modelo tipo “open space”, que concilia os pré-requisitos de salvaguarda do existente, institucionalmente assegurados, com alguma liberdade nas opções de reutilização a contratualizar com entidades terceiras, públicas ou privadas [5].

Porque a questão dos custos tem, presentemente, um enorme significado, a segunda opção é aquela que nos parece claramente a mais adequada, por duas ordens de razões:

1.a) porque permite a definição de um ambicioso programa institucional para o “mosteiro de Alcobaça” em articulação e complementaridade com um programa de usos a protocolar com outros serviços públicos, entidades privadas ou em parcerias público-privadas, suficientemente aberto e criativo, que não compromete nem a arquitectura do monumento nem os investimentos a realizar com soluções de utilização que se venham eventualmente a revelar casos de insucesso, permitindo a adaptação a novos projectos de reutilização;

b) e permite a partilha de investimento, com a Administração Central e demais parceiros institucionais a assumir os custos que decorrem da que é sua obrigação legal e de infra-estrutura geral, e as demais entidades, mediante protocolos de instalação, a assumir custos finais de obra, equipamento e manutenção.

2. porque se apresenta, em nossa modesta opinião, como a alternativa mobilizadora do interesse de entidades terceiras a integrarem um projecto de reabilitação do Mosteiro de Alcobaça que o salvaguarda na esfera colectiva e universal do “valor de memória”, com o qual se identifiquem e de cuja definição sejam parte constituinte.

É neste modelo que a instalação de uma comunidade monástica se apresenta como uma inestimável mais-valia no projecto de revitalização e rentabilização económica do Mosteiro de Alcobaça, quer pelo obrigatório envolvimento prático na concepção e execução do projecto de “reabilitação arquitectónica e funcional”, quer pelo papel futuro na captação de sinergias associadas ao desenvolvimento de projectos na área da produção de “Saber e Conhecimento” monásticos, quer pelo contributo quase exclusivo ao nível da reabilitação e manutenção da CERCA como espaço verde de usos múltiplos – veja-se o exemplo paradigmático do Museu de Serralves, que nem sequer tem os meios que passariam a ser os do Mosteiro de Alcobaça.

Finalmente, pela introdução no projecto daquela dimensão religiosa-espiritual única, que identifica o turista-peregrino cisterciense e que, todos os estudos de projecção estratégica para Alcobaça insistem dever ser a “MARCA” do Mosteiro de Santa Maria, no eixo Alcobaça-Fátima-Tomar.


2. Os custos da reabilitação como equipamento privado: o Hotel de Charme

A eventual construção de um hotel de charme no Mosteiro de Alcobaça suscita considerações várias. Assim:

1. Em primeiro lugar, com carácter prioritário e obrigatório, são as considerações próprias de qualquer processo de avaliação de impacte de obra em património classificado. Se estas são obrigatórias e mandatárias para os particulares, como não considerá-las mandatárias para o Estado?

O Mosteiro de Alcobaça é Monumento Nacional (classificado pelo Decreto de 10.01.1907) e Património Mundial (classificado pela UNESCO em 15.12.1989). Está, por lei e instrumento jurídico próprio e obrigatório, protegido por uma ZEP-Zona Especial de Protecção (Diário do Governo, 2.ª Série, n.º 190 de 16.08.1957), que inclui a também obrigatória Área Non Ædificandi. Qualquer obra que os particulares pretendam executar nas suas propriedades, desde que situadas nos limites da ZEP, está obrigatoriamente condicionada a parecer e autorização prévia do Ministério da Cultura, competências que este, em Alcobaça, exerce sem parcimónia e mesmo algum exagero. É assim lícito aceitar que o mesmo MC seja o promotor da alienação de dois terços do monumento para a construção de um equipamento de utilização excepcionalmente elitista e restritiva e cuja construção obedece a parâmetros tais que implica a destruição irreversível da quase totalidade das áreas que lhe serão afectadas, incluindo a área construída?

É aceitável que, por este processo, quiçá com o argumento de que apenas o núcleo medieval se encontra classificado, seja a própria entidade que tem a responsabilidade de “assurer que la valeur universelle exceptionnelle, les conditions d’intégrité et/ou d’authenticité définies lors de l’inscription soient maintenues ou améliorées à l’avenir” [6] venha a ser a promotora da “destruição” dessa mesma identidade intrínseca [7], enquanto (i) “uma obra-prima do génio criador humano e (iv) exemplo excepcional de um tipo de construção ou de conjunto arquitectónico ou tecnológico ou de paisagem ilustrando um ou vários períodos significativos da história humana.” [8], sendo certo que a Abadia Cisterciense de Alcobaça é, rigorosamente, tudo isto, fazendo, por isso, “partie des biens inestimables et irremplaçables non seulement de chaque nation mais de l'humanité tout entière” [9]

Não é a Abadia cisterciense de Santa Maria de Alcobaça a totalidade do conjunto que Frei Manoel dos Santos magnificamente nos identifica na sua “Descrição do Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça”, escrita no primeiro quartel de 1700, incluindo a Biblioteca, então ainda inexistente?

2. A segunda respeita à viabilidade futura do projecto “mosteiro” enquanto pólo de atracção turística, seguramente comprometida pela “subtracção” à fruição pública de dois terços da Abadia, incluindo da Cerca.

A “construção” de um equipamento de tipo “hotel de charme” no “seio” do Mosteiro de Alcobaça implicará necessariamente [10], se não a contratualização de condições excepcionais de uso dos espaços “monásticos medievais” para oferta de toda uma série de actividades que só as abadias podem oferecer a uma clientela de gama alta, pelo menos a afectação de parte significativa das potencialidades de uso da mesma à realização de actividades que funcionem como elemento de atracção dessa mesma clientela. O que compromete igualmente de forma significativa qualquer programação cultural da entidade “mosteiro” que não tenha este elemento em consideração, a par da “rentabilidade” do espaço “sobrante”, tendencialmente reservado à satisfação das necessidades de lazer de clientes que “pagam muito bem” para receber muito e muito bom.

Aos outros, será exigido pagar mais para poderem usufruir do monumento. Alguns, manterão intacta a sua “disposição para pagar e aceitar”; outros, talvez a maior parte, como a prática em contextos similares demonstrou, vai simplesmente deixar de vir. Incluindo, seguramente, os Alcobacenses.

3. A Cerca é parte integrante do valor de memória do monumento. A construção de equipamentos destinados à actividade de lazer de luxo nos três quartos da Cerca projectados para afectação ao hotel de charme, anula os fins que serviram de justificação à sua aquisição pelo Estado e impede a sua reabilitação e restituição patrimonial integrada no Programa global de Reabilitação, Salvaguarda e Valorização do Mosteiro de Alcobaça.

É nestes três quartos da Cerca que o Mosteiro de Alcobaça materializa a sua relação de interdependência com o Rio Alcoa, neles se localizando as mais importantes estruturas de um Sistema Hidráulico prévio ao próprio mosteiro, de cuja identidade é componente de valor inestimável e insubstituível. A sua afectação a fins exclusivamente privados compromete, como já referimos, a fruição pública e universal do conjunto monástico perspectivada em termos da compreensão global e integrada daquela que é uma das mais importantes marcas da identidade cisterciense: a auto-suficiência construída naquela relação única com o ambiente através da hidráulica.

É nestes três quartos da Cerca, mais precisamente no quarto localizado entre a Conduta de água potável e a Levada, numa extensão ainda não totalmente conhecida, que se localiza a “necrópole dos monges”, cuja extraordinária relevância científica e cultural o Estado tem o dever institucional de proteger e salvaguardar para efeitos de investigação futura.

A afectação de três quartos da Cerca do Mosteiro à construção de equipamentos de lazer de um empreendimento hoteleiro de luxo priva os cidadãos de Alcobaça e os visitantes do Mosteiro, aqueles mesmo que se pretende atrair, da fruição dessa mesma Cerca. O que contraria todas as projecções estratégicas e todas as avaliações de rentabilização económica dos projectos de valorização do património cultural, que insistem cada vez mais na importância da componente ambiental como factor de atracção turística e de valorização do território. Factor por demais evidente quando falamos de uma Abadia cisterciense.

4. Deste somatório, é nossa convicção que a “rentabilidade económica” do projecto “Mosteiro”, assumido como peça estratégica de desenvolvimento regional, como um potencial competitivo, um gerador de sinergias, um organizador do território, fica inviabilizada. Com efeito, não se nos afigura que um hotel de charme seja o equipamento que vai potenciar “estes recursos patrimoniais e culturais associados ao território (que) encerram um importante potencial a explorar para o desenvolvimento turístico da região, para a dinamização da base económica local e para a diversificação da economia regional, sendo ainda um importante contributo para a afirmação da identidade regional no exterior.” [11]. Não se nos afigura que a construção de um hotel de charme seja a forma mais moderna e economicamente viável de “valorizá-los, quer através da inovação nos produtos e nos processos de comercialização e marketing, quer através da criação de redes que, articulando territórios, recursos, produtos e equipamentos, permita ganhar massa crítica e favorecer economias de escala, potenciando novas oportunidades de negócio geradoras de emprego e rendimento e promovendo uma maior integração dos espaços sub-regionais.” [12]

Concluímos, citando uma vez mais o mesmo Programa Operacional do Centro 2007-2013, o documento de referência para o desenvolvimento estratégico nacional, ao reafirmar que “As prioridades estratégicas relativas ao território devem, assim, incidir, por um lado, na preservação e valorização dos recursos existentes e, por outro lado, no reforço da integração e da identidade da região, como factores críticos do seu desenvolvimento.” [13]

Construir um hotel de charme no Mosteiro de Alcobaça responde a estes desafios estratégicos? Claramente que não. Construir um hotel de charme no Mosteiro de Alcobaça compromete de modo irreversível o futuro da abadia e tem como consequência imediata a destruição irreversível do seu valor-memória precisamente como (i) “uma obra-prima do génio criador humano e (iv) exemplo excepcional de um tipo de construção ou de conjunto arquitectónico ou tecnológico ou de paisagem ilustrando um ou vários períodos significativos da história humana.”

Construir um hotel de charme no Mosteiro de Alcobaça é privar o universo dos cidadãos da fruição de um dos mais belos mosteiros cistercienses europeus. E para nós, Portugueses, é privar-nos de um dos mais importantes fragmentos da nossa identidade como nação independente.


Que futuro, então, para o Mosteiro de Alcobaça: uma proposta

O Mosteiro não é um equipamento do concelho nem tão pouco um equipamento do Oeste. O Mosteiro é um equipamento nacional e o arco espiritual/cultural deverá ser entendido como um dispositivo cultural de Portugal e da Europa... ou até mesmo uma pertença de toda a Humanidade.” [14]


O mosteiro, comunidade monástica

Como já referimos, a revitalização do Mosteiro de Alcobaça para a sua missão original apresenta-se hoje como perfeitamente viável, sendo o Claustro do Cardeal o espaço preferencial para a instalação da comunidade monástica, em virtude da sua localização anexa ao corpo medieval e relativamente ao qual conserva várias opções para restabelecimento da comunicação com a Igreja, obrigatória para o Oficio Divino.

Originariamente projectado como Dormitório, este corpo conserva a sua estrutura primitiva significativamente conservada, apresentando algumas modificações funcionais que, em nossa opinião, não só não prejudicam esta nova funcionalidade, mais complexa, como a facilitam: referimo-nos a instalações sanitárias e infra-estruturas de saneamento, aquecimento e iluminação; cozinhas e espaços amplos de trabalho; oficinas ou espaços a elas facilmente convertíveis.

A sua separação funcional do Claustro do Rachadoiro não constitui problema, podendo ser equacionada segundo vários modelos, em função do Programa institucional que venha a ser definido para a Abadia. A Cerca, conservando também praticamente intactas todas as suas potencialidades de utilização, é mais um elemento a considerar no conjunto dos requisitos obrigatórios.

Um mosteiro vivo é sempre um mosteiro inteiramente diferente e constantemente “renovado”. São vários os exemplos conhecidos um pouco por toda a Europa, mas, pela qualidade e pelo paralelismo das soluções programáticas, destacamos a Abadia de Notre-Dame d’Orval, na Bélgica.

O Primeiro-Ministro Eng. António Guterres num acto de grande coragem política decidiu, de acordo com o Governo de então, devolver a Abadia de Tibães à Vida Monástica afectando-lhe uma «área reservada ou de clausura» da velha Abadia e outras instalações modernas adaptadas às novas realidades da vida Contemplativa/Religiosa. Em conclusão a decisão supra mencionada só poderia ter acontecido com um homem de Estado, um homem de cultura e um homem plural num País onde as fricções ideológicas e a liberdade religiosa ainda não são acolhidas por todos em plano de igualdade.

Não temos dúvidas que aberto o precedente na Abadia de Tibães, o Mosteiro de Alcobaça é aquele que reúne as melhores condições para o regresso dos Monges Cistercienses ao seu Mosteiro.

O presente e o futuro são bem mais simples que o peso da religiosidade popular do passado. Hoje uma comunidade Monástica pós-Concílio Vaticano II pode ter 10 a 12 monges com o seu Abade. Todavia não apresentamos uma proposta fechada, mas tão somente uma sugestão para ajudar a repensar o futuro do Mosteiro de Alcobaça no seu todo arquitectónico.

O Mosteiro, hospedaria de peregrinação

Todas as abadias têm o dever de hospedagem e assistência, sendo, para tal, dotadas de uma hospedaria-enfermaria.

Se é verdade que “não é possível retomar a existência, a organização e as funções que as ordens religiosas tiveram em Portugal e na Europa, mas continua a ser necessário responder à mesma necessidade de configuração a que, na sua época histórica, estas instituições de base espiritual souberam responder” [15], quem melhor do que a comunidade monástica residente para cumprir este desiderato, fazendo do Mosteiro de Alcobaça aquele lugar de descanso e pernoita, onde todo o peregrino busca revitalização e alimento espiritual?

Uma hospedaria, dependência monástica ou “explorada” pela comunidade monástica, surge, assim, como uma segunda componente estruturante do programa para o Mosteiro. E não duvidamos do seu potencial de atracção num projecto configurante regido pela dimensão religiosa-espiritual do eixo Alcobaça-Fátima-Tomar, já hoje determinante. Podemos mesmo afirmar que, se esta hospedaria já existisse hoje, a sua taxa de ocupação seria significativa, quer junto dos “peregrinos de Fátima”, nacionais e estrangeiros, que durante todo o ano incluem o mosteiro no seu roteiro de peregrinação, quer junto de organizações de juventude, também nacionais e estrangeiras, quer junto de estudantes e investigadores de diferentes áreas do conhecimento que estudam Cister, quer junto do turista-peregrino.

A existência de uma comunidade residente permitiria uma outra valência que assume, hoje, um papel cada vez mais importante na vida de todo aquele que, simplesmente, procura fugir ao stress: a paz de um “retiro espiritual” .

O Mosteiro, Museu

O eixo Alcobaça-Tomar é o eixo configurante da fronteira sul no quadro da primeira consolidação daquele que vai ser o reino de Portugal, sendo, nesse contexto, peça estratégica fundamental a entrega da sua defesa, povoamento e cristianização à Ordem de Cister e à Ordem do Templo.

O papel que estas duas Ordens desempenharam na constituição da nacionalidade portuguesa não pode nem deve ser esquecido quando se pensa num programa para o Mosteiro de Alcobaça, ainda mais em associação estratégica com o Convento de Cristo. Com efeito, não existindo em Portugal nenhuma entidade museológica tendo como missão específica a formação dos cidadãos nos valores da identidade nacional configurada pelos seus fundadores, o mosteiro de Alcobaça, tendo sido produtor desses conteúdos, deve assumir como sua essa missão.

Um Museu do Mosteiro de Alcobaça e da Ordem de Cister em Portugal é, em nosso entender, uma componente obrigatória de qualquer Programa que venha a ser definido. Este, que propomos, deverá ser um MUSEU NACIONAL, em que Cister e Portugal se articulam verdadeiramente na teia de relações à escala europeia que definiram os fundamentos da construção desta mesma identidade que é, hoje, a nossa, num processo que se iniciou no século VIII, com Carlos Magno, e que Bernardo de Claraval, de algum modo, fechou, no século XII.

Um Museu do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, cuja localização no eixo Alcobaça-Fátima-Tomar transforma naturalmente num núcleo material e imaterial desta complexa realidade, que tem na invocação Mariana uma segunda matriz. Porque a dedicação a Santa Maria é, de facto, mais do que uma identidade cisterciense. É também, e sobretudo, europeia e universalmente cristã. É Maria Theotokos, que o Papa Inocêncio II consagra Rainha dos Céus.

O Mosteiro de Alcobaça, peça fundamental no xadrez político e diplomático que fez de Portugal o País mais antigo da Europa, reúne todas as condições para ser esse museu, em complementaridade com o Convento de Cristo, a outra peça que lhe corresponde na componente militar. E, fundamentalmente, porque uma e outra Ordem são apenas os dois braços da mesma milícia cristã bernardina.

O Mosteiro da Batalha, o ex-voto de graças pela primeira grande vitória sobre a ameaça da perda dessa independência, está estrategicamente colocado a meio caminho. A sua história articula-se com Alcobaça-Aljubarrota e com Porto de Mós – S. Jorge. Alcobaça foi uma peça também desse xadrez. Esta história não é a história dos Coutos de Alcobaça. É uma outra História. É a História de Portugal. E esta, confunde-se com a do Mosteiro de Alcobaça e com a da Ordem de Cister, até 1833, nos bons e nos maus momentos. E é bom que não a esqueçamos. Porque é ela que nos identifica!

O Mosteiro de Alcobaça, Centro Europeu de Estudos Cistercienses

Como seria natural, este museu não se confina programaticamente à região centro, nem a Portugal, nem à Hispânia. Este museu projecta a história de Portugal na história da Europa em construção e, nesse sentido, o Programa para o Mosteiro de Alcobaça deve incluir a valência de um Centro de Estudos Cistercienses, área cada vez mais atractiva da investigação científica, transversal a praticamente todos os ramos do saber.

Um Centro de Estudos Cistercienses introduz a necessária mudança de paradigma por todos recomendada, ao projectar e integrar efectivamente Alcobaça no contexto do espaço integrado europeu. São vários os projectos multinacionais que contam com parcerias das universidades portuguesas, para cujo desenvolvimento seria muito interessante e atractiva a existência de uma sede chamada “mosteiro de Alcobaça”.

Os Fundos do Mosteiro de Alcobaça são de valor inestimável e a simples possibilidade de o seu acesso poder estar disponível no local onde foram produzidos e onde a informação neles contida pode materialmente ser verificada são, entre outras, hipóteses que justificam as melhores expectativas para um investimento desta natureza. Naturalmente que não nos referimos a uma disponibilidade física presencial, mas, até por isso, este Centro, ao suscitar um investimento permanente em investigação na área das TIC, seria um “projecto configurante” extraordinariamente valioso e que poderia, talvez definitivamente, “resolver” as indecisões dos vários Governos de Lisboa relativamente ao o Ensino Superior na Cidade de Alcobaça.

O Mosteiro, Centro de Artes Monásticas

As opções programáticas anteriores, e designadamente o Centro de Estudos Cistercienses, abrem-nos caminho para a criação de um Centro de Artes Monásticas, dedicado ao estudo, produção artística, conservação e restauro e divulgação das Artes e Ofícios cistercienses. Artisticamente, o Mosteiro de Alcobaça identifica-se pelo seu Scriptorium e pela sua Escultura em barro policromado. Os materiais cerâmicos de revestimento, o vitral, a Escultura em madeira, embora menos conhecidos, merecem igualmente especial atenção.

A criação de escolas-oficina dedicadas ao estudo destas artes monásticas, desde o processo produtivo à divulgação, contem em si mesma um extraordinário potencial de oportunidades de conhecimento e de desenvolvimento de actividades de ID, geradoras de sinergias várias, com potencialidades atractivas capazes de ultrapassar o mundo universitário, alcançando as empresas. São, aliás, já vários os projectos internacionais dedicados a algumas destas actividades, sendo talvez o mais relevante o projecto Enluminures, do qual é parceira a Universidade Nova. Uma escola-oficina de Iluminura no Mosteiro de Alcobaça seria, com certeza, um investimento muito atractivo nas áreas das indústrias culturais.

Por outro lado, são igualmente actividades com sustentabilidade interna, enquanto fornecedoras de recursos necessários ao próprio mosteiro, como é o caso dos materiais cerâmicos de revestimento: neste caso, a criação de uma escola-oficina dedicada ao estudo e produção artística dos ladrilhos de Alcobaça oferece-nos a possibilidade objectiva de voltar a ter o Deambulatório repavimentado com os fac-simile dos seus extraordinários ladrilhos.

Como, aliás, dos demais espaços.

CONCLUSÃO

É este um Programa financeiramente lucrativo? Haverá que avaliá-lo seriamente, em condições de igualdade com outras propostas objectivas, que tenham em devida conta o custo-benefício da perda do valor de uso versus sustentabilidade e preservação do valor intrínseco.

Não cabe ao Mosteiro garantir o futuro de Alcobaça. Mas é responsabilidade inalienável do País e de Alcobaça assegurar o futuro do Mosteiro, preservando-o para as gerações futuras.

Alcobaça, 8 de Setembro de 2008

Paulo Bernardino

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